
Margarida de
Lorena, duquesa de Aleçon, nascida em 1463, foi educada na corte do seu piedoso
avô, rei Renato de Avinhão. Os seus principais textos de estudo, a “Legenda
Áurea” e as Vidas dos Santos produziram nela tal impacto, que aos 10 anos de
idade já sonhava em ser eremita, como mostrou um episódio curioso. Durante um
passeio coletivo, Margarida e mais algumas companheiras separaram-se do grupo.
Julgando-se que se teriam perdido na mata, organizou-se uma operação de busca.
Quando à tardinha a encontraram, confessou que se tinha escondido de propósito,
para experimentar como seria a vida eremítica.
Entretanto
morreu-lhe o avô, sendo ela ainda uma jovem de 17 anos. Regressou então à
Lorena, e uma cunhada assumiu o encargo de continuar a sua educação na mesma
linha de piedade. No ano seguinte casou com o duque de Alençon, com o mesmo
nome do falecido avô, Renato. Mas a vida do casal não foi fácil, pois os
desastres da guerra dos 100 anos fizeram-se sentir no pequeno ducado. A
situação da esposa tornou-se ainda pior quando lhe morreu o marido, deixando-a
viúva aos 32 anos de idade, com três filhos de tenra idade para criar.
A partir de
então, como mulher forte, dedicou-se à educação dos orfãos, cuja tutela os
parentes pretendiam assumir. Opondo-se a essa pretensão, Margarida esmerou-se
na educação dos filhos, conseguindo que eles se tornassem jovens admiráveis, os
adolescentes de sangue real mais cobiçados, que vieram a conseguir ótimos
casamentos.
Uma vez liberta
do encargo dos filhos, decidiu libertar-se também da administração do ducado,
que com escrupulosa abnegação assumira durante 22 anos de viuvez. Dividiu os
seus bens pessoais em três lotes, um dos quais destinado aos pobres, outro para
igrejas, e o terceiro para seu próprio sustento. Depois retirou-se para o castelo
de Essai, transformando-o em um autêntico mosteiro em estrito contato com as
clarissas de Aleçon. O bispo da diocese chegou mesmo a recomendar à duquesa que
moderasse as suas práticas ascéticas bastante exageradas, como passar em claro
noites inteiras em oração, usar cilícios, fazer grandes temporadas de jejum, e
flagelar-se com violência para saborear um pouquinho da Paixão de Jesus, como
ela mesma costumava dizer.
Dócil às
recomendações do bispo, Margarida mudou então de método ascético: dedicou-se a
tratar as chagas dos doentes num dispensário que ela mesma fundou em Mortagne.
E por fim ingressou mesmo no mosteiro das clarissas de Argentan, a fim de
partilhar a vida duríssima das filhas de Santa Clara. Foi, porém, uma
experiência de pouca duração, pois ao fim de dois anos adoeceu gravemente, e
preparou-se para a morte, que ocorreu no dia 2 de novembro de 1521, tendo ela
58 anos de idade. Só então se descobriu que ela trazia ao peito uma cruz de
ferro com três pontas aguçadas que se lhe cravavam na carne.
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