sexta-feira, 17 de agosto de 2012

18 de agosto: Beatos João Luiz Loir, Protásio Bourbon, Sebastião François - presbíteros e mártires de Rochefort




Beato João Luiz Loir

Entre os 800 padres e religiosos trucidados em 1794 na ilha de Aix (França), estavam também diversos frades capuchinhos. Seriam deportados para a Guiana, mas os veleiros que cruzavam as costas francesas impediram esta viagem e muitos deram a vida por amor da fé. Este sacrifício foi reconhecido como graça do martírio a 1º de outubro de 1995 por João Paulo II para João Batista Sousa de Besançon, Protásio de Sées e Sebastião de Nancy, dos quais agora queremos brevemente narrar a história.

João Batista (era este o seu nome de batismo) nasceu a 11 de março de 1720, em Besançon, filho de João Luiz Loir e Elisabeth Juliot, sexto de oito filhos e foi batizado no mesmo dia. O pai, parisiense, era diretor e tesoureiro da Casa da Moeda de Borgonha de Besançon e em 1730 foi eleito diretor da mesma em Lion, onde foi morar com toda a família e onde o filho João Batista fez os seus estudos. Aos 20 anos, no mês de maio de 1740, se fez capuchinho no grande convento da cidade e toma, com o hábito, o nome de Frei João Luiz. Professou aos 09 de maio de 1741. Em Lion, os capuchinhos moravam em dois conventos, um chamado São Francisco e o outro Santo André. Nestas duas casas o futuro mártir transcorre a maior parte da sua vida religiosa.

Registramos aqui o testemunho de um abade que conheceu Frei João Luiz: "Dotado de todas aquelas virtudes que o poderiam tornar recomendável, ele jamais quis aceitar algum cargo, dizendo que entrara na Ordem não para comandar, mas para obedecer, não para dominar, mas para ser submisso. Dedicando-se, com humildade, à salvação das almas, exercitou o ministério da confissão com fruto e infatigavelmente. Não existia missão organizada por seus confrades, na qual ele não prestasse o seu zelo. O povo simples e os pobres eram os seus prediletos".

Tinha 74 anos quando os revolucionários franceses obrigaram os padres e religiosos, em 1791, a prestar juramento da constituição civil do clero. Pe. João Luiz se encontrava no convento de São Francisco quando a assembléia constituinte ordenara o inventário das pessoas e dos bens de cada casa religiosa. Ele declarara que queria permanecer na Ordem. Mas em outubro deixou Lion e foi para Bourbonais em Précord, no castelo onde morava sua irmã Nicole Elisabeth com o filho Gilberto de Grassin e onde também duas sobrinhas irmãs dominicanas encontraram refúgio. No dia 30 de maio de 1793, sem motivo, todos os moradores do castelo foram levados para Moulins, onde 66 padres estavam reclusos, parte na prisão e parte no antigo mosteiro Santa Clara. No elenco dos eclesiásticos que não haviam prestado juramento figurava também o Pe. Loir. A sua idade o teria livrado de ulteriores sofrimentos se não fosse o terrível acordo ateístico dos fins de 1793, que permitia tacitamente a eliminação dos anciãos eclesiásticos que, de fato, foram transportados, muitos deles doentes, em três expedições diversas, até Rochefort. Pe. João Luiz deixou Moulins aos 12 de abril de 1794, na terceira expedição, com 26 deportados, canônicos, curas, trapistas, capuchinhos, outros franciscanos e irmãos das Escolas Cristãs. Durante o trajeto, escoltados, foram ajudados pelo povo. Chegaram a Rochefort no fim de abril. Indagados sobre tudo, foram amontoados sobre duas naus ancoradas naquela costa de mar.

A nau na qual foi colocado o Pe. João Luiz se chamava "Deus-Associés". Eram 400 deportados em estado que causava piedade. Era o verdadeiro suplício da fome, ao qual se ajuntavam outros terríveis tormentos de caráter higiênico-sanitário, sem remédios, e os insultos dos marinheiros. Mas o tormento pior eram as horas noturnas. Todavia, a pena maior era não poder ter nem breviário nem outros livros de piedade e nem poder rezar juntos.

Estes eram os sofrimentos do Pe. João Luiz. Mas o seu caráter vivo e alegre infundia coragem nos companheiros de desventura. Um dos sobreviventes testemunhou que o capuchinho "embora sendo um venerável velho, se tornara a alegria de todos. Ele cantava como um jovem de trinta anos procurando assim aliviar os nossos sofrimentos, escondendo os seus que o estavam consumindo. Ele morreu serenamente como sempre vivera. Na manhã do dia 19 de maio de 1794 encontraram Frei João Luiz morto, de joelhos, no seu lugar. Ele foi o primeiro dos 22 capuchinhos que morreram em Rochefort".

Ó Deus, ao comemorarmos a paixão dos vossos mártires João Luiz Loir, Protásio Bourdon e Sebastião Francisco, dai-nos a alegria de ver atendidas as nossas preces, para imitarmos sua firmeza na fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, nosso irmão, na unidade do Espírito Santo. Amém.


Beato Protásio Bourbon

No mesmo navio "Deus-Associés" onde morreu o Beato João Luiz de Besançon estava também o Pe. Protásio Bourdon. Também dele sabemos pouca coisa. Nasceu aos 03 de abril de 1747, foi batizado um dia depois na Paróquia de São Pedro de Séez (Orne). Os seus pais e parentes eram abastados. O pai, Simone Bourdon, era carpinteiro e a mãe se chamava Maria Luiza le Fou. A formação cristã recebida fez amadurecer nele a vocação à vida religiosa que o levou a entrar, aos vinte anos, entre os capuchinhos de Bayeux onde professou aos 27 de novembro de 1768 tomando o nome de Frei Protásio. Em 1775 foi consagrado sacerdote e nas poucas notícias de arquivo sabe-se que morou por um pouco de tempo na casa de Honfleur, vizinho ao Santuário de Nossa Senhora das Graças. Vamos encontrá-lo também no Convento de Caen aos 29 de novembro de 1783. E em 1789 foi secretário do ministro provincial da Normandia.

O seu último destino, como secretário provincial e guardião, foi o convento de Sotteville, vizinho a Ruen. Aqui, com sua comunidade o encontraram os agentes municipais, quando vieram pesquisar a casa e requerer o juramento da constituição civil do clero. Ele refutou juntamente com os seus confrades, reforçando em duas circunstâncias diversas a sua vontade de perseverar na vida religiosa, e particularmente aos 26 de agosto de 1791, quando estava em ato a última verificação do inventário do convento, do qual os religiosos, no ano depois, foram expulsos definitivamente e colocados na rua. Pe. Protásio quis da mesma maneira permanecer em Rouen e, recusando de tomar o caminho do exílio, encontrou hospitalidade junto de um senhor, a quem compensava com um pouco da sua pensão e com as esmolas recebidas pelas missas celebradas.

Esta sua tenacidade lhe mereceu a prisão e ser interrogado por dois fanáticos cidadãos que, na sua futilidade e leviandade, mostra, como sempre acontece, a inconsistência de semelhantes processos de que é cheia, infelizmente, a história. O texto deste interrogatório foi felizmente conservado. Pe. Protásio respondeu com muita liberdade, mas foi claro declarando que refutava o juramento, que queria seguir fielmente a sua vida religiosa, e foi reticente onde se tratava de não revelar o envolvimento de outras pessoas.

Na investigação tida na casa onde se refugiara, foram encontrados manuscritos e alguns livros impressos que se tornaram objetos de acusação porque defendiam os refratários. Ele não ofereceu ulteriores explicações que seriam comprometedoras também para outros e nem revelou o nome das pessoas junto a quem celebrava a Eucaristia em segredo. É uma atitude simplesmente religiosa, por isto enfrentaria riscos e perigos. Está aqui o seu heroísmo. A ele interessava a fé íntegra, simples e lúcida. Não foi nenhuma atitude política. O efeito porém foi imedia ele foi imediatamente fechado no antigo seminário de Rouen São Vivien, utilizado pelos revolucionários como casa de detenção provisória, na espera da sentença definitiva, que chegou a 10 de janeiro de 1794: o "cidadão" João Bourdon, ou seja, Pe. Protásio foi condenado a ser deportado para a Guiana por ter celebrado missa ilegalmente e ter tido documentos suspeitos.

Aos 09 de março foi levado para Rochefort, onde chega aos 12 de abril e, interrogado, foi privado de tudo aquilo que ainda podia ter: um relógio de ouro com uma caixinha para cobrí-lo (provavelmente se tratava de uma custódia eucarística) e 1.303 liras. Embarcado no "Deus-Associés", segue a sorte dos outros prisioneiros e o quadro desolador de sofrimentos vulgares, de agonias e de morte que forma o tecido quotidiano daquela prisão, o mesmo já descrito para o Beato João Luiz Loir. Depois de quatro meses, o Pe. Protásio, na noite de 23 para 24 de agosto de 1794, morria de mal contagioso. Um sobrevivente deixava mais tarde este testemunho: "Era um religioso de grande merecimento e louvor seja por suas iniciativas em favor dos confrades deportados, seja por suas capacidades físicas e morais de que era dotado, seja sobretudo pela firmeza na fé, a sua prudência, equilíbrio, regularidade e outras virtudes cristãs e religiosas".


Beato Sebastião François

Entre as 547 vítimas de "Rochefort" e os 64 sacerdotes beatificados como mártires da Revolução Francesa figura também o Pe. Sebastião de Nancy. A trama da sua biografia é um pouco mais documentada. Francisco François nasceu aos 17 de janeiro de 1749 em Nancy, filho de Domingos e Margarida Vernerson, e foi batizado um dia depois na igreja de São Nicolau. Ainda quase criança conheceu os capuchinhos. A Paróquia de São Nicolau, fundada em 1731, utilizava a igreja dos capuchinhos para o culto até 1770. Os frades animavam também a Ordem Franciscana Secular. O convento era importante sede do Capítulo Provincial e do lanifício da Província para confecção das túnicas e mantelos para todos os capuchinhos de Lorena, distribuídos em 28 conventos no território da região.

O mestre de noviços, Frei Miguel, aos 24 de janeiro de 1768, o revestiu com o hábito capuchinho com o novo nome de Frei Sebastião e um ano depois recebeu a profissão solene. O ato da sua profissão, assinado no Registro Oficial, é o primeiro de 1769, como o ato do batismo inaugurava o registro da Paróquia de São Nicolau, em Mousson, um convento fundado em 1607 e renovado em 1764. No tempo do Beato Sebastião moravam neste convento nove padres, seis clérigos e um frade não clérigo. Frei Sebastião estava completando os seus estudos e já tinha sido ordenado sacerdote, ainda que são sabemos com precisão, a data da sua ordenação.

Aos 05 de junho de 1777 é confessor no convento de Sarreguemines. Em 1778 vai para o convento de Sarrebourg, Diocese de Metz, como confessor. Aos 26 de agosto de 1784 foi enviado para o convento de Commercy até o final de 1789.

Pe. Sebastião a partir de 1789 se encontrava no convento de Epinal, quando estourou a Revolução Francesa com todas as conseqüências anti-religiosas e antieclesiásticas. Os comissários municipais, aos 30 de abril de 1790, entraram no convento para fazer o inventário. Um ano depois, os móveis e pertences do convento, foram vendidos e Frei Sebastião encaminhado para o convento de Castelo-sur-Moselle, indicado pelo Conselho Municipal como casa comum dos capuchinhos. Aos 09 de novembro de 1793 foi enviado para a casa das Terceiras em Nancy, que servia como prisão para os padres refratários.

Aos 26 de janeiro de 1794 o administrador do distrito de Nancy, verificando a situação de todos os detentos e do Pe. Sebastião anotou que era refratário e sem nenhuma enfermidade, pronto pois, a entrar na lista dos padres rebeldes condenados a Rochefort. Partiram pois a 1º de abril 48 padres e religiosos e depois de um penoso trajeto de quatro semanas, chegaram a Rochefort aos 28 de abril. Alguns dias depois, embarcados no navio negreiro de Deus-Associés, já com 373 padres e religiosos prisioneiros, foram transportados para a ilha de Aix e Oleron onde o veleiro foi atracado. Ao Pe. Sebastião se apresenta uma visão desoladora: aquela centena de prisioneiros pálidos, barbas longas e mal tratados, hábitos suados, parece uma prisão de moribundos.

"O nosso navio atufado de padres e religiosos - como deixou escrito um sobrevivente - era como um altar para o holocausto em louvor da Providência entre as ondas do mar, para a consumação perfeita do sacrifício". Os corpos das vítimas, completamente despojados como nos campos de concentração hitlerianos, foram transferidos para as margens arenosas e alguns dos prisioneiros ainda em discreta saúde ali deviam sepultá-los na areia sem poder recitar nenhuma oração ou elevar ao céu qualquer canto da igreja.

As testemunhas deixaram um esplêndido retrato do Pe. Sebastião, cultivado como uma flor especial de virtudes no maço de flores perfumadas dos mártires. Eis suas palavras: "O Senhor manifestou a santidade do seu servo, o Pe. Sebastião, capuchinho da casa de Nancy, vindo para morrer sobre esta nau. Este santo religioso era entre nós venerado pela sua eminente piedade e virtude e tocante devoção. Rezava incessantemente, sobretudo na última doença. Em uma manhã foi visto de joelhos, os braços abertos em forma de cruz, os olhos elevados ao céu, a boca aberta. Não se fez muito caso, porque já estávamos acostumados a vê-lo rezar assim, durante a sua doença. Depois de meia hora, estávamos estupefatos de vê-lo perseverar naquela posição tão incômoda e difícil, porque agora o mar estava muito agitado e a embarcação balançava e oscilava muito. Provavelmente estava em êxtase. Nós aproximamos para vê-lo de perto. Tocando seu corpo e as suas mãos, percebemos que há muito ele entregara sua alma a Deus".

Os marinheiros foram chamados. Era o dia 10 de agosto de 1794. A recordação do Beato Sebastião permanece esculpida assim: Um homem que não só reza, mas todo transformado em oração; na vida e na morte, uma oração feita homem, encarnada, como Francisco de Assis.
 
 
acessado em 17/08/12 às 23:00:  http://www.procamig.org.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário